A atenção selectiva negativa é um dos aspectos que melhor caracterizam o funcionamento cognitivo dos estados depressivos e ansiogénicos: o sujeito, impregnado por estados de espírito facilitadores de viéses cognitivos, atende, recorda e constrói com maior frequência e disponibilidade os aspectos problemáticos ou negativos da sua realidade, acentuando ou criando uma realidade pessoal igualmente dificil. Daí que nos empenhemos tanto, nas nossas práticas clínicas, no treino da inversão destes viéses cognitivos, destes automatismos inscritos de forma quase indelével nos seus processos de raciocínio. Para o conseguir construímos com o paciente um ambiente emocional positivo, de desdramatização, de algum optimismo realista e até de bom humor, e procuramos o envolvimento em actividades sistemáticas de auto-monitorização cognitiva: vigiar quotidianamente os seus pensamentos e aprender a não se agarrar ao pior ou ao menos bom ("let it dye"), mas antes ao que vai sendo melhor, mais simples, mais constructivo, produzindo juizos e avaliações mais benignas e generosas do seu dia a dia. Na perspectiva da construção de maior bem-estar, melhores níveis de adaptação e produtividade. Contudo a resistência e oposição que encontramos são consideráveis. Desde a necessidade que o sujeito sente de convencer o seu psicoterapeuta da sua perspectiva, de sentir a sua empatia e cumplicidade, à dificuldade em ultrapassar os automatismos e as crenças inscritas de forma indelével na sua experiência fisica e emocional. De tal forma assim é que podemos garantir ao sujeito que não perderá a capacidade de desesperar, de se deprimir ou de identificar exageradamente riscos e perigos. E que, na melhor hipótese, apenas aprenderá formas alternativas de olhar a realidade. É mudar permanecendo o mesmo: sem perder razão, identidade ou estima.
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