2005/08/31

Limites e fronteiras na Relaçao Terapeutica

Imagine encontros casuais com clientes e pacientes: na rua, em centros comerciais, no ginásio, em acontecimentos sociais com amigos comuns ... algum nervosismo surge se nada foi dito e acordado antecipadamente sobre esta eventualidade. Não sabemos se dizer apenas "Olá" e seguir (este "Olá" é até desaconselhado nas escolas de inspiração psicodinâmica), ou se abrimos a conversa e a socialização, garantindo o sigilo profissional a que estamos obrigados: não revelar que este é um nosso paciente, nem deixar perceber temas e preocupações de que no ocupamos.

De facto diferentes clientes têm expectativas, atitudes e receios diferentes. Para uns o encontro provoca claramente ansiedade e desconforto, preferiam que não acontecesse. Para outros o encontro é uma surpresa agradável e desejável, alguns gostariam até de ser nossos amigos.

Como nos devemos situar então? Devemos mudar de passeio quando um paciente se aproxima, para lhe evitar o desconforto, facilitando o processo transferencial e a construção da imagem de um psicoterapeuta poderoso, omnipotente ( a perspectiva psicodinâmica)? Ou devemos ter uma atitude natural, um cumprimento simples, ou mais caloroso, mais aproximador?

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  • 2005/08/22

    Dois Modelos: Boulder ou Vail?

    Boulder, Colorado, 1949: na primeira conferência nacional àcerca da formação e treino de psicólogos clínicos, atribuiu-se igual peso ao desenvolvimento de competências de investigação versus competências clinicas. Entendia-se que a disciplina carecia de muito desenvolvimento teórico e conceptual, e que os psicólogos não deveriam abandonar a investigação. Nascia o psicólogo cientista-praticante.
    O grau a atribuir , embora clinicamente orientado, é académico: um PhD (Doctor of Philosophy). Entende-se que os psicólogos clinicos devem saber fazer e ler investigação, e que nada prepara melhor para isso que um programa de Doutoramento. A sua formação deveria assim decorrer em departamentos Universitários.

    Vail, Colorado, 1973: quase 25 anos decorridos, conferência da dissidência. Os conferencistas defendem que um corpo extenso de conhecimentos se desenvolveu e amadureceu entretanto, reclamando a necessidade de criação de programas profissionais, que acreditem a prática clinica, e que complementem o modelo de Boulder.
    Propõe-se assim uma diferenciação de graus, surgindo o PsyD (Doctor of Psychology), programa desenvolvido independentemente das Universidades, e cujo foco principal deve ser na prática clinica e menos na investigação. Nascia o psicólogo clínico profissional.



    E onde estamos nós, decorridos quase outros 25 anos? Somos investigadores das práticas clínicas, investigadores com competências clinicas, ou cujo trabalho pode ter implicações clinicas? Ou somos clínicos atraídos pela investigação, consumidores de investigação? Investigadores profissionais ou clinicos profissionais?

    Acresce que em países de lingua portuguesa basta uma licenciatura para ser tratado por Doutor... ou bastava?

    2005/08/02

    Francisco Varela (1946-2001)

    «Se toda a gente pudesse concordar em que a sua actual realidade é uma realidade, e que aquilo que essencialmente partilhamos é a nossa capacidade para construir uma realidade, então talvez pudessemos todos concordar num meta-acordo para gerar uma realidade que significaria a sobrevivência e dignidade para todos no planeta, em vez de cada grupo reconhecer apenas um modo particular de fazer as coisas.»
    Francisco Varela

    Ler homenagem ao seu trabalho aqui

    «Autopoiese. Poiesis é um termo grego que significa produção. Autopoiese quer dizer autoprodução. A palavra surgiu pela primeira vez na literatura internacional em 1974, num artigo publicado por Varela, Maturana e Uribe, para definir os seres vivos como sistemas que produzem continuamente a si mesmos. Esses sistemas são autopoiéticos por definição, porque recompõem continuamente os seus componentes desgastados. Pode-se concluir, portanto, que um sistema autopoiético é ao mesmo tempo produtor e produto.»

    Humberto Mariotti, Autopoesis, cultura e sociedade



    Obrigado puraeconomia

    2005/07/27

    Que nos ensina a Experiencia?

    MELHOR CONHECIMENTO / BOAS ROTINAS


    Que diferença faz cinco, dez, ou vinte anos de pratica clínica? A experiência faz alguma diferença? Ou tudo se resume a fazer as melhores leituras, saber os melhores teorias e métodos? Como aprendemos mais e melhor? Nos manuais, congressos e conferências, de cariz mais teórico, ou nos artigos especializados, workshops, seminários, supervisão, de cariz mais prático?
    Hoje é consensual que o conhecimento, para que se aprofunde e enriqueça, e deixe de ser meramente conceptual, pressupõe alguma prática . Conhecer é bem mais do que ler: é discutir, experimentar, aplicar, aperfeiçoar. Para melhor conhecer.

    Mais ainda, a boa clínica pressupõe o treino de boas rotinas, de boa comunicação, de metodologia, que conduzam à eficácia, uma das preocupações dominantes dos modelos e manuais actuais. Ora as boas rotinas não se adquirem conceptualmente, carecem de práticas. Boas Práticas pois. Que por sua vez requerem permanente actualização que propicie a renovaçao e a recuperação de eficácia.

    E a prática revela aspectos da realidade ausentes dos manuais e das teorias ...

    Mudança e Coerencia

    A atenção selectiva negativa é um dos aspectos que melhor caracterizam o funcionamento cognitivo dos estados depressivos e ansiogénicos: o sujeito, impregnado por estados de espírito facilitadores de viéses cognitivos, atende, recorda e constrói com maior frequência e disponibilidade os aspectos problemáticos ou negativos da sua realidade, acentuando ou criando uma realidade pessoal igualmente dificil. Daí que nos empenhemos tanto, nas nossas práticas clínicas, no treino da inversão destes viéses cognitivos, destes automatismos inscritos de forma quase indelével nos seus processos de raciocínio. Para o conseguir construímos com o paciente um ambiente emocional positivo, de desdramatização, de algum optimismo realista e até de bom humor, e procuramos o envolvimento em actividades sistemáticas de auto-monitorização cognitiva: vigiar quotidianamente os seus pensamentos e aprender a não se agarrar ao pior ou ao menos bom ("let it dye"), mas antes ao que vai sendo melhor, mais simples, mais constructivo, produzindo juizos e avaliações mais benignas e generosas do seu dia a dia. Na perspectiva da construção de maior bem-estar, melhores níveis de adaptação e produtividade.

    Contudo a resistência e oposição que encontramos são consideráveis. Desde a necessidade que o sujeito sente de convencer o seu psicoterapeuta da sua perspectiva, de sentir a sua empatia e cumplicidade, à dificuldade em ultrapassar os automatismos e as crenças inscritas de forma indelével na sua experiência fisica e emocional. De tal forma assim é que podemos garantir ao sujeito que não perderá a capacidade de desesperar, de se deprimir ou de identificar exageradamente riscos e perigos. E que, na melhor hipótese, apenas aprenderá formas alternativas de olhar a realidade. É mudar permanecendo o mesmo: sem perder razão, identidade ou estima.

    2005/07/26

    Amadores, mas com talento ....

    O amadorismo na prática da psicoterapia e aconselhamento sempre nos incomodou e embaraçou. Abre-se uma clínica ou consultório logo após a licenciatura, sem procurar formação especializada ou pós-graduada, sequer alguma supervisão ou tutela; ou pratica-se clínica em part-time, a par de qualquer actividade que nada tem a ver com a clínica, para equilibrar o orçamento ou realizar uma ambição pessoal.

    Pois temos vivido rodeados( ressalvando honrosas e distintas excepções) de exemplos e ilustrações várias deste amadorismo, quer entre psicólogos e outros licenciados em ciências sociais e humanas, quer no seio dos próprios médicos psiquiatras que pretendem saber fazer psicoterapia, e a reduzem a algumas palavras de apoio e incentivo, palmadinhas nas costas e "vai ver que vai melhorar", norteados por leituras ocasionais de modelos psicodinâmicos. Com resultados demasiadas vezes catastróficos, de más práticas e prejuízos tão graves quer para os nossos pacientes e utentes, quer para a imagem e a integração socio-profissional dos que querem ser respeitados como psicoterapeutas ou psicólogos clinicos, e que abordam a profissão com total empenhamento científico e profissional. Porque, caríssimos colegas, e com o devido respeito pela coragem e talento dos ditos: amadores só forcados, que estão lá precisamente para o que der e vier, depois se verá.

    2005/07/14

    Mestres na arte do pensamento

    Dois Homens, duas vidas, dois Psicoterapeutas. Dois percursos, duas referências, dois modelos. Semelhanças e diferenças? Ambos nos ajudam a mapear o pensamento, a identificar a sua estruturação, a sua arquitectura, os percursos problemáticos, e a inventar novos caminhos, novos olhares. Uma herança muito inspiradora e para muitos anos futuros.

    2005/07/13

    Experiencias limite

    Oprah Winfrey habituou-nos ao tratamento de temas difíceis da experiência humana: experiências multi-traumáticas, perdas colossais, perturbações mentais severas, doenças crónicas, etc.. Em ressonância com momentos dificeis do seu próprio percurso de vida. A idéia básica é compreender, e acender uma luz de esperança. Artes do espectáculo e do entretenimento? Reflexão educativa? Ambos?

    Sem dúvida uma talentosa e generosa comunicadora. Que oferece um lugar de destaque às psicoterapias, no plural, na diversidade.

    Corpo e pensamento

    O pensamento, a grande aventura humana, um eterno misterio, um dom fabuloso. E a matéria do pensamento, a parte do corpo, que não se restringe ao órgão mais complexo e mais moldável que possuimos, o cérebro, mas se alarga a outros órgãos, visceras e musculos? A energia de fluxos electrofisiológicas, percorrendo, construindo, redes neuronais. Resultante do percurso de um corpo e da sua consciência, de experiências sensoriais e emocionais, que reconstruímos em códigos linguísticos de natureza verbal e imagética. Circuitos e caminhos que desconhecemos, e nos surprendem, por vezes atraiçoam. E que mais?
    (Big Man, de R. Mueck)

    Caos e acaso

    Perdidos, desorientados, à procura de qualquer coisa por definir. Na poesia do caos e do acaso. Tantas vezes acompanhamos alguém nessa travessia, por vezes auto-reveladora. Como o deserto.

    Magia de quem?



    " A compra de uma hora de sobrevivência é garantida pelas Senhas da Confraria de Tinan. São senhas que podem comprar-se; melhor será ganhá-las por mérito. Mandam-nos um médico, quando obtemos a senha, e ele estuda as nossas possibilidades.Compromete-se e em seu nome compromete a confraria, se a prevenirem da morte antes de passarem as vinte e quatro horas, a restituir-nos à vida pelo menos uma hora. Comprei uma destas senhas, mais me fiava nela do que em qualquer outra coisa, e mais posso lamentá-lo do que qualquer outra coisa. Como esperar, agora, que alguma vez eu vá apresentá-la a tempo?"

    (No País da Magia, Henri Michaux, 1967/trad. 1987)

    Medo e fuga

    Quando a timidez ou a vulnerabilidade nos levam a desejar a fuga e o isolamento. E caminhamos escondidos, e certamente perdidos. Anos e anos.

    "Parting Shot"

    Entrar na minha cabeça

    A necessidade dos espelhos, das imagens que os outros nos oferecem - há melhores, há piores, há-as mesmo más, que nos distorcem para toda uma vida.

    A procura das identidades, do autoconhecimento, das diferentes personagens cá dentro, de "entrar" na minha cabeça, de me compreender, de olhar por mim. E recuperar auto-estima.


    Juan Munoz.

    Momentos criticos

    Tantos sere humanos nos procuram em momentos críticos, e nos revelam o mais ínitimo de si: a sua imperfeição, a coragem para enfrentarem as suas fragilidades, ou para iniciarem uma pesquisa dolorosa, algo a que se agarrar. Para ultrapassar momentos difíceis, adversidades em série. Para crescer, ou mesmo sobreviver.

    Helena Almeida - "Negro e espesso"

    Auto-retrato continuo a dois

    Em "Pintura Habitada" Helena Almeida parece sugerir o cruzamento de dois mundos: o da realidade implacável dos espelhos, do nitrato de prata, do olhar dos outros, mas também do desejo constructivo de nos transformarmos, e inventarmos, através do nosso próprio olhar. A sugerir a Psicoterapia como um auto-retrato a dois olhares: o do terapeuta-espelho, que deve saber reflectir e ampliar o melhor do que vê, e transformar ou diminuir o menos bom, e o do próprio sujeito-pintor. Libertador e onírico, como o pensamento que construímos a trocar experiências.